Regulação Emocional
O excesso de positividade pode afastar-nos da experiência emocional real
A procura constante pela positividade pode gerar afastamento emocional e dificuldade em reconhecer emoções importantes da experiência humana.

Vivemos num tempo em que parece existir uma dificuldade crescente em tolerar emoções difíceis. A tristeza tornou-se algo que deve ser resolvido rapidamente. A ansiedade tornou-se algo que deve ser controlado. A dor emocional deve ser transformada, ultrapassada ou convertida em crescimento pessoal o mais depressa possível.
Existe uma pressão subtil para estarmos bem, funcionais, positivos e regulados. Como se sentir desconforto emocional durante demasiado tempo fosse sinal de falha pessoal ou incapacidade emocional. Curiosamente, este discurso surge muitas vezes precisamente nos contextos associados ao bem-estar.
Fala-se constantemente sobre gratidão, positividade, autocuidado e desenvolvimento pessoal. Embora muitos destes conceitos tenham valor, podem também transformar-se numa forma de dissociação emocional quando utilizados para evitar aquilo que é mais difícil sentir. Nem tudo o que parece saudável significa necessariamente integração emocional. Por vezes, é apenas evitamento disfarçado numa linguagem bonita.
Na prática clínica, este processo surge frequentemente em pessoas que aprenderam a minimizar aquilo que sentem. Pessoas aparentemente funcionais, que continuam a trabalhar, a cuidar dos outros e a cumprir responsabilidades, mas que, de certa forma, perderam contacto com a própria experiência emocional.
Muitas vezes dizem coisas como: “Eu sei que não devia sentir-me assim.” “Tenho tudo para estar bem.” “Há pessoas em situações muito piores.” Como se o sofrimento tivesse de ser justificado para poder existir.
As emoções não funcionam dessa forma. A experiência emocional não desaparece por ser racionalizada, comparada ou coberta por um manto de pensamento positivo. Aquilo que não é reconhecido tende apenas a manifestar-se de outras formas: através do corpo, da irritabilidade persistente, da ansiedade constante, da sensação de vazio ou da exaustão emocional.
Existe uma diferença importante entre regular emoções e afastarmo-nos delas. Regular implica a capacidade de sentir sem sermos completamente dominados pela experiência emocional. O afastamento emocional implica desligamento. Nem sempre é fácil distinguir os dois, sobretudo numa cultura que valoriza a produtividade emocional e onde existe pouco espaço para a vulnerabilidade.
É curioso observar como tantas pessoas sentem culpa por estarem tristes, como se determinadas emoções fossem incompatíveis com uma vida “bem resolvida”. Esquecemo-nos de que uma vida emocional saudável não significa ausência de sofrimento. Significa capacidade de permanecermos em contacto connosco próprios mesmo quando aquilo que sentimos é desconfortável.
Nem tudo precisa de ser imediatamente transformado em aprendizagem. Nem toda a dor precisa de conter uma mensagem positiva. Nem todas as emoções difíceis representam uma regressão emocional. A experiência humana é inevitavelmente feita de luz e de sombra, de estabilidade e desorganização, de momentos de expansão e de retraimento.
Talvez a maturidade emocional não seja sentirmo-nos bem o tempo todo. Talvez seja conseguir permanecer connosco próprios mesmo quando aquilo que sentimos não é confortável.
